Nossas Festas

Lag BaÔmer

Lag BaÔmer é uma data singular no calendário judaico, celebrada no 33º dia da contagem do Ômer, um período de 49 dias entre Pêssach (Páscoa) e Shavuot (Festa das Semanas). Essa celebração é marcada por fogueiras, danças e alegria, contrastando com o luto característico desse período. Mas por que Lag BaÔmer é tão especial?

A tradição nos ensina que esta data comemora o fim da praga que atingiu os alunos de Rabi Akiva, um dos maiores sábios da era Mishnáica. No entanto, Lag BaÔmer é também o dia da elevação espiritual de Rabbi Shimon bar Yochai (Rashbi), um dos discípulos mais destacados de Rabi Akiva e autor do Zôhar, a principal obra da Kabbalah.

Rashbi é lembrado como uma fonte de luz espiritual, alguém que revelou profundas verdades místicas que iluminaram o mundo. Por isso, a fogueira de Lag BaÔmer simboliza essa luz, um fogo que não apenas aquece, mas ilumina. Em Meron, Israel, milhares se reúnem ao redor de uma grande fogueira em seu túmulo, celebrando sua vida e ensinamentos.

Uma interpretação fascinante sugere que as fogueiras de São João, festa popular em várias culturas, teriam sua origem nas fogueiras de Lag BaÔmer. Durante o período da Inquisição, muitos judeus foram forçados a adotar o cristianismo, tornando-se anussim (forçados). Para preservar suas tradições, esses judeus disfarçavam suas práticas em celebrações cristãs. A fogueira de Lag BaÔmer, símbolo de luz e conhecimento espiritual, teria sido mantida de forma oculta sob o disfarce das fogueiras de São João.

Independentemente da origem exata, Lag BaÔmer é uma oportunidade para refletir sobre o conceito cabalístico de Hod shebeHod (Esplendor no Esplendor), uma luz interna que brilha com pureza. Que esta data inspire a busca pela sabedoria e pela luz espiritual que nos guia.

Shavuot

Shavuot é uma das três grandes festas de peregrinação do calendário judaico, juntamente com Pessach e Sucot. Seu nome, que significa “Semanas”, remete ao período de sete semanas contadas a partir do segundo dia de Pessach, conhecido como Sefirat HaOmer. Esse intervalo de tempo marca uma preparação espiritual, uma elevação progressiva que culmina em Shavuot, a celebração da entrega da Torá no Monte Sinai.

Mais do que uma comemoração histórica, Shavuot é uma convocação espiritual permanente. No Sinai, há mais de três mil anos, D’us revelou Sua vontade ao povo de Israel, dando-lhe a Torá como aliança e guia de vida. Esse evento não pertence apenas ao passado; ele se atualiza a cada geração, pois a Torá é entregue novamente sempre que uma comunidade se reúne para ouvi-la, estudá-la e colocá-la em prática.

Em sua essência, Shavuot representa a revelação divina e a constituição do povo de Israel como uma nação de vocação espiritual. A Torá não é apenas um código de leis ou um patrimônio cultural, mas a expressão da vontade de D’us para a humanidade, e especialmente para Israel, que assumiu o compromisso de ser um povo de sacerdotes e uma nação santa.

Por isso, Shavuot sempre foi, e continua sendo, uma festa de convocação. A Torá estabelece claramente:

“Três vezes no ano todo homem entre vocês deverá apresentar-se diante do Eterno, teu D’us, no lugar que Ele escolher”
(Devarim / Deuteronômio 16:16).

Quando o Templo Sagrado de Jerusalém existia, Shavuot era ocasião de peregrinação, de oferenda das primícias (Bikurim) e de celebração nacional. Com a destruição do Templo, manteve-se o caráter convocatório: agora, a reunião não se dá no Beit HaMikdash, mas em cada comunidade, sinagoga ou Beit Midrash, onde o povo de Israel continua a afirmar sua unidade, seu compromisso com a Torá e sua esperança na redenção.

Celebrar Shavuot, portanto, não é um ato privado ou meramente familiar: é um chamado para participar da vida comunitária, da tradição transmitida de geração em geração, da responsabilidade de manter viva a aliança com o Eterno. O isolamento contradiz a essência desta festividade, que nasce da unidade do povo: “Como um só homem, com um só coração”, acampou Israel diante do Sinai (Shemot / Êxodo 19:2). Assim também deve ser nossa celebração: comunitária, pública e compromissada.

Além de seu significado espiritual, Shavuot conserva elementos que evocam sua dimensão agrícola. É chamada também de Ḥag HaBikurim, a Festa das Primícias, pois marcava o início da colheita dos primeiros frutos, que eram oferecidos no Templo como expressão de gratidão a D’us. Esse aspecto reforça a ideia de dependência do humano em relação ao divino, do reconhecimento de que tudo o que temos é dádiva e bênção.

O costume de consumir alimentos lácteos em Shavuot expressa simbolicamente a pureza e a doçura da Torá, comparada ao leite: “Leite e mel estão debaixo da tua língua” (Shir HaShirim / Cântico dos Cânticos 4:11). Também relembra que, ao receberem a Torá, os israelitas optaram por refeições simples, já que ainda não dominavam plenamente as leis da kashrut. Além disso, reforça a separação entre leite e carne, ensinando autocontrole e disciplina espiritual.

Outro costume central de Shavuot é o Tikkun Leil Shavuot, uma vigília noturna de estudo da Torá, tradição que expressa a disposição do povo judeu de não apenas receber, mas também buscar ativamente a sabedoria divina, com amor e reverência.

Em nossa comunidade, na Beit Peniel, celebramos Shavuot como um tempo de encontro: com a Torá, com D’us, e uns com os outros. Mantemos vivas as tradições milenares, mas também acolhemos a oportunidade de renovar nosso compromisso espiritual, social e ético.

Shavuot nos lembra que a revelação de D’us não é um eco distante, mas uma voz que ainda nos chama. Somos convocados, a cada ano, a comparecer perante o Eterno, a ouvir Sua Torá, a vivê-la e a transmiti-la.

Que nesta festa, possamos, como nossos ancestrais no Sinai, dizer novamente:

“Naasê venishmá – Faremos e ouviremos” (Shemot / Êxodo 24:7),

aceitando a Torá não como imposição, mas como dom e missão.

Ḥag Shavuot Sameaḥ!

Rosh HaShanah

Rosh HaShanah (רֹאשׁ הַשָּׁנָה), conhecido popularmente como o “Ano Novo Judaico”, é, na realidade, uma das datas mais complexas e teologicamente densas do calendário judaico. Diferentemente da concepção civil de um simples reinício cronológico, Rosh HaShanah marca um ponto de inflexão espiritual e cósmico, no qual a soberania divina é reafirmada e o mundo inteiro passa novamente sob julgamento¹.

Curiosamente, a Torá não chama essa data de “Rosh HaShanah”. Nos textos bíblicos, o primeiro dia do mês de Tishrei é denominado Yom Teru‘ah – o “Dia do Toque”². Não há menção explícita à criação do mundo, ao julgamento universal ou mesmo à ideia de “ano novo”. Isso revela um dado fundamental: o significado profundo de Rosh HaShanah não é imediato no nível literal da Torá, mas se desdobra progressivamente através da Tradição Oral.

O Julgamento do Mundo e o Tempo da Responsabilidade

A Mishná ensina que existem quatro “começos de ano” no calendário judaico, cada um com uma função distinta. O primeiro de Tishrei é definido como o início do ano “para os anos” e, de forma decisiva, como o dia em que todas as criaturas passam em julgamento diante de HaShem³. O Talmud descreve esse julgamento com uma imagem poderosa: todos os seres humanos atravessam diante do Criador “como um rebanho”, individualmente e sem possibilidade de ocultação⁴.

Esse julgamento, contudo, não deve ser entendido de forma simplista ou meramente punitiva. A tradição rabínica esclarece que Rosh HaShanah inaugura um processo que se estende até Yom Kippur. Em Rosh HaShanah, o julgamento é iniciado; em Yom Kippur, ele é selado⁵. Trata-se, portanto, de um tempo estendido de responsabilidade moral, no qual o ser humano é chamado a se realinhar com a vontade divina.

Criação do Mundo: Aniversário ou Coroação?

Um dos debates mais conhecidos do Talmud diz respeito à criação do mundo. Segundo Rabi Eliezer, o mundo foi criado em Tishrei; segundo Rabi Yehoshua, em Nissan⁶. O fato de ambas as opiniões serem preservadas é revelador: o Judaísmo não dogmatiza a data da criação do universo.

Mais do que comemorar um “aniversário cósmico”, Rosh HaShanah celebra algo mais profundo: a aceitação renovada do reinado de HaShem sobre a criação. Por isso, a liturgia do dia enfatiza repetidamente o tema de Malḥut, realeza divina, afirmando que o mundo só continua existindo porque o ser humano reconhece novamente a soberania do Criador⁷.

O Shofar: ruptura, não melodia

O elemento central de Rosh HaShanah é o toque do shofar. Diferentemente de instrumentos musicais, o shofar não produz harmonia nem beleza estética. Seu som é cru, quebrado, primitivo. O Rambam explica que o shofar funciona como um chamado de despertar, um choque espiritual destinado a retirar o ser humano de sua inércia moral⁸.

No entanto, em um nível mais profundo, o shofar não se dirige apenas ao homem. A tradição mística ensina que seu som atua nos mundos espirituais, despertando a misericórdia divina e reequilibrando as forças espirituais que regem a criação⁹.

Rosh HaShanah na Dimensão Mística: renovação do fluxo divino

O Zohar descreve Rosh HaShanah como um momento de renovação do fluxo vital que sustenta o universo. Nesse dia, a sefirah de Malḥut. associada à manifestação divina no mundo, encontra-se em estado de contração, aguardando ser reativada¹⁰. O toque do shofar atua como um catalisador espiritual, elevando Malchut e reconectando-a às sefirot superiores, especialmente Binah, a fonte da misericórdia.

O Arizal aprofunda essa ideia ao ensinar que Rosh HaShanah é um momento de tikkun da realeza, um reparo metafísico ligado ao desequilíbrio introduzido pelo pecado primordial de Adam. Não se trata, nesse nível, de introspecção psicológica ou sentimento de culpa, mas de um ato objetivo de realinhamento cósmico, no qual o ser humano participa ativamente da sustentação do mundo¹¹.

Síntese: o que Rosh HaShanah realmente representa

Rosh HaShanah não é simplesmente o início de um novo ciclo anual. É o momento em que o mundo inteiro é colocado novamente diante de sua razão de existir. Ao coroar HaShem como Rei, o ser humano reafirma que a criação possui propósito, ordem e direção. Sem essa coroação renovada, ensinam os sábios, o mundo não poderia subsistir¹².


Assim, Rosh HaShanah é, ao mesmo tempo:
– o início do julgamento,
– a reafirmação da soberania divina,
– a renovação do fluxo espiritual da criação,
– e o fundamento de todo o processo de teshuvá que culmina em Yom Kippur.

Fontes

  1. Mishná, Rosh HaShanah 1:1
    https://www.sefaria.org/Mishnah_Rosh_Hashanah.1.1
  2. Vayikrá (Levítico) 23:24; Bamidbar (Números) 29:1
    https://www.sefaria.org/Leviticus.23.24
    https://www.sefaria.org/Numbers.29.1
  3. Mishná, Rosh HaShanah 1:1 (definição de julgamento e início do ano)
    https://www.sefaria.org/Mishnah_Rosh_Hashanah.1.1
  4. Talmud Bavli, Rosh HaShanah 16a
    https://www.sefaria.org/Rosh_Hashanah.16a
  5. Talmud Bavli, Rosh HaShanah 16b
    https://www.sefaria.org/Rosh_Hashanah.16b
  6. Talmud Bavli, Rosh HaShanah 27a (criação em Tishrei ou Nissan)
    https://www.sefaria.org/Rosh_Hashanah.27a
  7. Talmud Bavli, Rosh HaShanah 16a–b (Malchuyot, Zichronot, Shofarot)
    https://www.sefaria.org/Rosh_Hashanah.16a
    https://www.sefaria.org/Rosh_Hashanah.16b
  8. Rambam (Maimônides), Mishneh Torá, Hilchot Teshuvá 3:4
    https://www.sefaria.org/Mishneh_Torah%2C_Repentance.3.4
  9. Talmud Bavli, Rosh HaShanah 16a; Zohar (efeito espiritual do shofar)
    https://www.sefaria.org/Rosh_Hashanah.16a
  10. Zohar, Vol. III, 231a–b
    https://www.sefaria.org/Zohar.3.231a
    https://www.sefaria.org/Zohar.3.231b
  11. Rabi Yitzchak Luria (Arizal), Pri Etz Chaim, Sha‘ar Rosh HaShanah
    https://www.sefaria.org/Pri_Etz_Chaim%2C_Shaar_Rosh_Hashanah
  12. Zohar, Vol. III, 231b (continuidade da criação condicionada à Malchut)
    https://www.sefaria.org/Zohar.3.231b